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IGREJA X ESTADO = PAPA E UNIÃO EUROPÉIA

28/10/2004 - 09h15
Papa deseja solução para crise institucional européia
da Folha Online

O Papa João Paulo 2º desejou nesta quinta-feira que se encontre uma solução para a crise institucional européia "num espírito de concórdia e de respeito mútuo", ao receber no Vaticano o presidente da Comissão Européia, Romano Prodi, que está deixando o cargo.

"Espero que as dificuldades encontradas nestes últimos dias em relação à nova Comissão possam levar a uma solução num espírito de concórdia e de respeito mútuo entre todas as instâncias envolvidas", disse o papa a Prodi.

Ontem, diante da derrota iminente no Parlamento Europeu, o presidente de Portugal, Durão Barroso, retirou sugestão para a composição do órgão executivo do bloco, pedindo aos parlamentares mais tempo para buscar solução.

"Eu preciso de mais tempo", declarou Durão, presidente designado da Comissão Européia, ao Parlamento Europeu. "Se tivéssemos votado hoje [ontem], o resultado não teria sido positivo para as instituições européias", acrescentou o político português, que espera encontrar uma solução "em questão de semanas".

O presidente do Parlamento Europeu, Josep Borrell, constatou em seguida que a União Européia está penetrando "em terras desconhecidas" e que a atual comissão continuará exercendo sua função sob a presidência de Prodi enquanto necessário.



Escrito por Luiz J. Marquart às 09h51
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O MUNDO EM GRANDES BLOCOS: FACILITANDO UNIÕES

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26 de outubro, 2004 - 12h57 GMT (09h57 Brasília)

Asiáticos anunciam maior zona de livre comércio

A China e a Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) chegaram a um acordo para a redução de tarifas comerciais a partir de 2005 e a eliminação total das taxas até 2010, de acordo com o Ministério do Comércio chinês.

O comunicado das autoridades chinesas afirma que o acordo para a criação da "maior zona de livre comércio do mundo" deve ser assinado em novembro, durante um encontro de líderes da China e dos dez membros do bloco do Sudeste Asiático.

Segundo o Ministério do Comércio da China, a nova área de livre comércio terá uma população de quase 2 bilhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 2 trilhões em 2010.

O comércio entre a China e os países da Asean atingiu um recorde em 2003 (US$ 78,25 bilhões), com uma alta de 42,8% em relação ao ano anterior, de acordo com estatísticas do governo chinês.

Os países que formam a Asean são Brunei, Camboja, Laos, Vietnã, Indonésia, Filipinas, Cingapura, Mianmar, Malásia e Tailândia.

O bloco do Sudeste Asiático é o quinto maior parceiro comercial da China e responde por 11% do total do comércio exterior chinês.

A China também negocia a possibilidade de um acordo de livre comércio com a Austrália após a conclusão de um estudo de viabilidade que deve terminar em março do ano que vem.

Para fechar os acordos, a China exige que os "novos sócios" reconheçam a economia do país como uma economia de mercado.



Escrito por Luiz J. Marquart às 21h46
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PETRÓLEO: MOTIVO DE FUTURA UNIÃO

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26 de outubro, 2004 - 12h30 GMT (09h30 Brasília)

Mundo ficará mais vulnerável ao petróleo, diz agência de energia

A vulnerabilidade em relação a um choque nos preços do petróleo aumentará nos próximos anos, segundo previsão da Agência Internacional de Energia (AIE).

No relatório Panorama Energético Mundial 2004, divulgado nesta terça-feira, a AIE prevê que a oferta do produto será concentrada cada vez mais em poucos países, principalmente nos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróelo (Opep) no Oriente Médio.

"A maioria desse comércio adicional terá que passar pontos de obstrução vitais, aumentando muito as possibilidades de interrupção no fornecimento", diz o texto.

Pelas estimativas da agência, a demanda por petróleo continuará subindo, a 1,6% ao ano, principalmente nos países em desenvolvimento.

Até 2030, o comércio internacional do produto dobrará para 65 milhões de barris por dia pelas estimativas da agência.

A Opep terá uma fatia maior do mercado, aumentado sua proporção de 37% (2002) para 53% (2030), um pouco acima do seu pico histórico registrado em 1973.

Preço

A AIE comenta que os atuais preços do petróleo, que têm alcançado recordes de alta históricos, são "insustentáveis" e que os "fundamentos do mercado vão levá-los para baixo nos próximos dois anos".

A agência calcula que o preço do petróleo cru para importação deverá recuar para US$ 22 em 2006, ficando estável até 2010 e depois subindo para US$ 29 em 2030.

Alguns fatores, no entanto, poderiam manter os preços altos: subinvestimento em infra-estrutura, forte pressão de demanda, falta de disponibilidade de recursos e fatores geopolíticos.

O levantamento afirma que as reservas mundiais de petróleo ainda são suficientes para atender a demanda das próximas três décadas, mas destaca a necessidade de um sistema "universal, transparente e abrangente" para reportar a quantidade de petróleo que existe no planeta.

"A confiabilidade das informações sobre as reservas repassadas pelas companhias de petróleo são postas em séria questão. Dúvidas sobre a precisão das estimativas de reservas poderiam subestimar a confiança do investidor e diminuir o investimento", justifica a agência.

Renováveis

Segundo a AIE, que é uma agência intergovernamental criada depois da crise do petróleo nos anos 70, a demanda mundial por energia aumentará em quase 60% até 2030. Os países em desenvolvimento serão responsáveis por dois terços dessa alta.

Os combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão) continuarão como as principais fontes de energia.

As renováveis (incluindo geotérmica, solar, eólica, entre outras) crescerão mais rápido do que qualquer outra fonte de energia, mas, segundo a AIE, a proporção em relação à demanda global será de apenas 2% em 2030.

A energia nuclear aumentará muito pouco, avançando na Ásia, mas diminuindo na Europa.

"Os recursos energéticos mundiais são adequados para atender a demanda para 2030. O comércio internacional de energia irá expandir para acomodar o crescente desencontro entre a localização da demanda e aquela da produção."

Quanto às emissões de gás carbônico, essas crescerão 1,7% ao ano até 2030, prevê a AIE. Cerca de 70% dessa alta seria proveniente de países em desenvolvimento.

"Em 2010, as emissões de gás carbônico serão 39% mais altas do que em 1990."

A AIE também traça um cenário alternativo para o futuro. Caso os governos introduzam políticas de meio ambiente e desenvolvam novas tecnologias, a demanda mundial de energia poderá ser 10% menor em 2030.



Escrito por Luiz J. Marquart às 21h37
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NOVA CARTILHA DO VATICANO

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25 de outubro, 2004 - 19h11 GMT (16h11 Brasília)

Assimina Vlahou
de Roma

Cartilha da Igreja condena união gay e guerra preventiva

O Vaticano apresentou nesta segunda-feira a cartilha da Doutrina Social da Igreja, documento que pretende ser um código de conduta para os católicos e uma base de diálogo com as outras religiões.

É a primeira vez que a Igreja lança uma iniciativa como esta – uma espécie de manual, dividido por argumentos, que define e reafirma a posição da Igreja em vários aspectos da vida social: família, política, economia, ambiente, trabalho, comunidade internacional.

O documento desaconselha o reconhecimento legal de homens e mulheres que vivem juntos sem se casar e os casamentos de pessoas do mesmo sexo.

Além disso, defende a reforma agrária, alerta para os riscos da globalização e condena a doutrina dos ataques preventivos, defendida pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.

500 páginas

O documento foi preparado pelo Pontifício Conselho de Justiça e Paz. Tem quase 500 páginas, levou seis anos para ficar pronto e traz uma síntese de documentos e declarações do papa, além de trechos do Evangelho.

"A ação militar preventiva, sem provas evidentes de uma verdadeira ameaça de agressão, desperta graves interrogações sobre o perfil moral e jurídico", diz o documento na parte relativa às relações entre países.

"Somente os organismos competentes da comunidade internacional são autorizados a legitimar ações bélicas em defesa da paz mundial."

Quanto à globalização, a cartilha afirma que ela "não deve ser um novo tipo de colonialismo".

No que diz respeito à economia, o documento destaca a importância de salários justos, "fruto legítimo do trabalho", e defende o direito de greve.

Considera ainda "imoral qualquer forma indébita de acumulação de riqueza" e define o apego ao dinheiro como "a raiz de todos os males".

E expõe a posição da Igreja a favor da redistribuição da terra, definida como "uma obrigação moral".

Família

No capítulo dedicado à família, o texto constata um aumento progressivo no número de casais que vivem em uniões não oficializadas.

Mas condena essas relações, que, segundo o Vaticano, "se baseiam numa falsa concepção da liberdade". Em seguida, desaconselha o reconhecimento legal, que é negado também para casais do mesmo sexo.

"Respeito pelos homossexuais não significa legitimação de comportamentos não conformes às leis morais, nem o reconhecimento de um direito ao matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, com a conseqüente equiparação de suas uniões à família."

A mulher conquista, aos olhos do Vaticano, o direito de fazer carreira, mas sob a condição de não descuidar de marido e filhos.

A doutrina social da igreja defende os impostos, "cruciais para o desenvolvimento da solidariedade", e afirma que o Estado deve garantir previdência e proteção social, com atenção especial aos mais fracos.

Na introdução, o cardeal Renato Martino, presidente do Conselho de Justiça e Paz, diz que o documento oferece um quadro completo das linhas fundamentais da doutrina e do ensinamento social católicos, "um ato de serviço aos homens e mulheres do nosso tempo".

Mas o texto denuncia que os católicos são vítimas de discriminação nas sociedades democráticas.

Na visão da Igreja, "um laicismo intolerante hostiliza qualquer forma de relevância política e cultural da fé, tentando desqualificar a atividade social e política dos cristãos".



Escrito por Luiz J. Marquart às 21h16
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INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Le Monde


21/10/2004
Lei que proíbe véu em escola provoca expulsões
França proibiu ostentação de símbolo religioso em espaço público

Martine Laronche
Em Mulhouse (nordeste da França)


Pela primeira vez desde a entrada em vigor da lei de 15 de março, que proíbe o uso de sinais religiosos ostensivos na escola, duas colegiais de Mulhouse (nordeste, perto de Estrasburgo) foram excluídas, nesta terça-feira (19/10), do estabelecimento onde elas estudavam.

Dounia e Khouloud, ambas com 12 anos, estavam estudando no colégio Jean-Macé, e se encontravam num nível equivalente à segunda série brasileira. "O conselho de disciplina pronunciou-se, pela maioria, a favor da exclusão de duas alunas em função do seu não-respeito da lei de 15 de março de 2004", anunciou a diretora do estabelecimento, Michelle Feder-Cunin.

"Em todo caso, a reunião de um conselho de disciplina, e uma tal decisão, equivalem a um fracasso", prosseguiu a responsável do colégio, uma vez que o nosso objetivo é que todos os alunos tenham sucesso na sua escolaridade".

Na volta às aulas, as duas adolescentes, francesas de origem argelina, apresentaram-se trajando um lenço que lhes cobria a cabeça. Contudo, esta prática, que havia sido autorizada em 2003, havia deixado de sê-lo em virtude da lei sobre o laicismo.

Em função disso, elas foram inicialmente isoladas dos seus camaradas. Primeiro, elas foram mantidas juntas, e depois em duas salas separadas. "Um acompanhamento escolar e pedagógico" lhes foi oferecido, enquanto "um diálogo foi empreendido com elas e com os seus pais, de maneira a explicar-lhes a necessidade de se submeterem às exigências da lei", declarou a diretora do colégio.

Alguns dias depois, as duas jovens "trocaram o seu lenço por uma bandana [lenço de tamanho maior e colorido]". "Os seus pais haviam calculado que desta forma elas escapavam do contexto da lei mas isso não constituía uma desistência do sinal religioso ostensivo sobre a cabeça", concluiu Michelle Feder-Cunin, que não quis fornecer detalhes sobre os conselhos de disciplina, em razão do seu "dever de respeitar o seu caráter confidencial". No total, as duas reuniões tiveram cerca de três horas de duração, das 16h15 até 19h.

Na terça-feira, por volta das 17h, na saída das aulas, um grande número de alunos estava reunido na frente do colégio. Eles gritavam em coro os nomes das suas camaradas e palavras de ordem tais como "Viva o véu!".

Uma vez terminados os conselhos de disciplina, os pais das duas alunas excluídas anunciaram a sua intenção de entrar com recurso contra estas decisões, junto ao reitor da academia de Estrasburgo. Para tanto, eles têm um prazo de oito dias.

"Khouloud tinha 8,5 de média geral. Ela era uma das melhores alunas de sua classe, da qual ela havia sido eleita representante no ano passado", garantiu o seu pai, transtornado pela decisão da exclusão.

"Durante cerca de dois meses, as nossas filhas foram submetidas a um verdadeiro pesadelo, devido ao seu isolamento, à proibição de se juntar aos outros alunos durante o recreio, e de falar com os seus camaradas", explicou, por sua vez, o pai de Dounia.

"Nós recorreremos a todos os procedimentos legais existentes que lhes permitam reintegrar as aulas, e iremos até as últimas conseqüências". Enquanto isso, ambos os pais planejam escolarizar a sua filha no Centro Nacional de Ensino à Distância (CNED).

Tanto Dounia como Khouloud garantem que o uso do lenço sobre a cabeça resulta de uma escolha pessoal. "A minha mãe era contra, e o meu pai também", garante Dounia.

"Para mim, isso não constitui um sinal religioso ostensivo, e sim um sinal de pudor". O seu pai, que estava presente no conselho de disciplina de sua filha assim como ao de Khouloud, para prestar assistência ao seu pai, apresentou um dossiê para fazer a sua defesa.

"Inquisição"

"Ao substituírem o véu por uma bandana, as nossas filhas decidiram evitar colocar-se em infração com a lei", garantiu. Em relação à questão de saber por que a minha filha traja um lenço para cobrir a cabeça, eu lhes responderei que é contrário ao laicismo responder a esta pergunta. O tecido que serve para cobrir a cabeça da minha filha não tem nenhuma conotação religiosa, e se os senhores argumentarem no sentido contrário, nós estaremos lidando com um delito de aparência. Eu tinha a impressão de estar na época da Inquisição", estimou o pai de Dounia depois dos conselhos. Segundo ele, a exclusão foi adotada por 8 votos a favor, 1 voto contra e 1 abstenção.

O pai da garota considera que na França, "o problema do véu foi utilizado por determinadas pessoas para afirmar os seus sentimentos antiimigrantes e antimuçulmanos".

Ele enxerga na lei "o produto de uma ideologia que predomina no momento", a saber "uma lei de exceção contra uma prática religiosa". "Os nossos pais tiveram de agüentar sofrimentos ardentes durante o colonialismo", explica. "Eu não imaginava que os meus próprios filhos também teriam de conhecer esse sofrimento".

Nesta quarta-feira (20/10), dois outros conselhos de disciplina estavam agendados em dois liceus de Mulhouse, em função do mesmo motivo do não-respeito da lei sobre o laicismo. O primeiro caso diz respeito à irmã primogênita de Dounia, Manèle, escolarizada na quinta série "científica" no liceu Louis-Armand.

O segundo envolve uma aluna de origem turca, que estuda na quarta série, no liceu Lavoisier. Esta última devia contar com o auxílio do médico Abdallah Thomas Milcent, um médico muçulmano de Estrasburgo que contribuiu para a implantação de um conselho especial para estes casos, no quadro do Comitê 15 de março, liberdades.

A academia de Estrasburgo, uma cidade onde vivem muitos muçulmanos, ainda terá pela frente, no término dos quatro conselhos de disciplina desta semana, 13 outros casos problemáticos. "No ano passado, nós tivemos entre 450 e 500 casos de jovens adolescentes usando véu na academia", lembra o reitorado.

Segundo ele, o diálogo que foi travado na volta às aulas, com cerca de cinqüenta alunas recalcitrantes, teve resultados positivos, "em praticamente todos os casos". Seis outros conselhos de disciplina estão previstos até o final do mês de novembro (quatro na academia de Caen, um na academia de Dijon e um na de Lyon).

Tradução: Jean-Yves de Neufville



Escrito por Luiz J. Marquart às 10h31
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USA - ESTADO E RELIGIÃO

The New York Times

23/10/2004
Mistura de religião e política conduz EUA ao caos
Bush usa fé para justicar e insistir em suas iniciativas mal sucedidas


Maureen Dowd
Colunista no NYTimes
Em Washington


Quando era pequena, eu era muito talentosa para dar saltos de fé. Uma freira colava no quadro um desenho de um pico de montanha coberto de neve e dizia que a primeira criança a enxergar a face de cristo na neve que se derretia seria a mais abençoada. Logo eu mostrava, presunçosamente, ao resto da turma o "miraculoso" contorno da face expressiva e barbada.

Mas nunca pensei que veria o dia em que os saltos de fé se tornariam uma política nacional; uma época em que o destino da nação dependesse da possibilidade de um milagre.

O que isso nos diz a respeito de um presidente cujas justificativas para a guerra são tão inconsistentes que a única forma que encontrou para justificá-la foi acreditar que o conflito era um desejo de Deus? Ou um presidente cuja única política atual para o Iraque --enquanto as nossas tropas combatem rebeldes ferozes e o sonho de uma democracia desmorona-- é uma crença em milagres?

Os milagres tornam os indiferentes ainda mais indiferentes. As pessoas que vivem norteadas por certezas religiosas não perdem seu tempo com fatos recalcitrantes ou com dúvidas morais. Elas não precisam torturar as suas mentes, por exemplo, ao mandarem jovens norte-americanos para armadilhas no deserto cheias de inimigos fantasmas, sem que contem com cobertura, blindagem, expectativas ou treinamento cultural apropriados.

Qualquer presidente que confiasse mais nos fatos do que na fé teria enxergado que tais tropas seriam alvos fáceis: a experiência de Donald Rumsfeld --enviar uma força leve e ágil-- conflitava diretamente com a necessidade de uma força avassaladora para que se colocasse em prática o esquema grandioso dos neoconservadores no sentido de transformar o Iraque em uma democracia modelo.

JFK teve que lutar contra a expectativa antipapista de que o seu Salão Oval receberia ordens do céu. Para W., isso se trata de um fato plenamente aceito. Alguns católicos de extrema direita querem que John Kerry seja excomungado, enquanto que os evangélicos chamam o presidente de um mensageiro de Deus. "A benção de Deus está com ele", disse o evangelista Pat Robertson na televisão, acrescentando. "É a bênção dos céus ao imperador".

Bush mostrou a todos os eleitores evangélicos que não gostam do seu pai que ele, para usar as palavras de Robertson, "recebe as suas ordens do Senhor".

Quando Paula Zahn perguntou nesta semana ao tele-evangelista se Bush, como cristão, deveria reconhecer os seus erros, Robertson disse ter advertido um satisfeito Bush sobre a questão do Iraque: "O Senhor me disse que aquilo seria (a) um desastre, e (b) uma bagunça.

Robertson afirmou: "Ele é o homem mais seguro de si que eu já conheci". Parafraseando Mark Twain, Robertson disse que Bush é "como um cristão feliz com quatro ases. Ele estava simplesmente sentado lá, como se estivesse no topo do mundo, e eu o alertei sobre esta guerra. Eu tentava dizer-lhe, senhor Presidente, é melhor você preparar o povo norte-americano para as baixas. 'Ah, não. Não sofreremos nenhuma baixa'".

Parece que W. realmente acredita ser o escolhido. Presidente Neo. (E os seus assessores são os discípulos. Foi por isso que Condi Rice se mostrou tão disposta a deixar de lado as suas tarefas relativas à segurança nacional para divulgar o evangelho de Bush nos Estados onde o resultado da eleição é imprevisível. E foi por esse motivo que Karen Hughes correu a contestar a autenticidade de Robertson, após este der descrito o seu assustador encontro com W.).

A deliberada cegueira de W. deriva do fato de ele assumir erroneamente que os seus desejos equivalem às vontades de Deus, como se soubesse qual é a posição do Criador sobre todas as questões, da democracia no Iraque às reduções de impostos sobre os lucros com investimentos financeiros.

Conforme Lincoln observou no seu Segundo Discurso de Posse sobre a Guerra Civil, ninguém pode falar em nome de Deus: "O Todo Poderoso tem os seus próprios objetivos".

Bush não apenas ignorou a advertência de Robertson --ele ignorou também os seus próprios especialistas em inteligência, que alertaram antes da guerra que uma invasão do Iraque angariaria mais apoio para o islamismo político e geraria um conflito violento, incluindo uma insurgência que aglutinaria membros do Partido Baath e terroristas em uma combinação tóxica.

Conforme Michael Gordon escreveu na sua série de artigos em The New York Times desta semana sobre "pontos cegos" na estratégia para garantir a segurança no Iraque, a equipe de Bush cometeu uma inacreditável série de erros: assumiu que seria capaz de retirar as tropas do território iraquiano 60 dias após a tomada de Bagdá; permitiu que a insurgência crescesse; aboliu as forças armadas iraquianas e colocou vidas norte-americanas em risco; não interpretou corretamente a reação óbvia a uma ocupação norte-americana de um país muçulmano.

E os oficiais de inteligência da CIA estavam tão perdidos que queriam distribuir centenas de bandeirinhas dos Estados Unidos no Iraque antes do início da guerra de forma que iraquianos agradecidos pudessem agitá-las para saudar os seus libertadores. A agência planejou filmar tal momento apoteótico e difundir triunfalmente essa imagem no mundo árabe.

O presidente está imbuído dessa estranha idéia de que a sua crença em Deus significa conhecimento detalhado e perfeito de tudo o que o Criador deseja. Bush pode ter a intenção de manter a cabeça enfiada nas areias do Iraque, mas corre o risco de descobrir que o Todo Poderoso possui os seus próprios
objetivos.

Tradução: Danilo Fonseca

Escrito por Luiz J. Marquart às 10h24
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