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PAPA JPII E FACÇÕES CONSERVADORAS - post UOL - jornal La Vanguardia

07/04/2005
Facções conservadoras cresceram no papado de João Paulo 2º e dominam a igreja

O fim do papa polonês Karol Wojtyla. O papa dos movimentos

Luis Fermín Moreno*
Especial para o LV


Das ordens religiosas clássicas para os novos movimentos eclesiais. Assim se pode descrever um dos principais efeitos do pontificado de João Paulo 2º no interior da Igreja Católica. Ou, quando menos, nas relações de influência e poder dos diversos grupos da igreja em torno do Vaticano e da hierarquia eclesiástica. Tanto é assim que movimentos como Opus Dei ou Comunhão e Libertação poderão ser decisivos no resultado do próximo conclave, a julgar pelos cardeais que pertencem a eles ou se movem em sua órbita.

O advento de Karol Wojtyla ao trono pontifício representou, praticamente desde o início, uma clara mudança de orientação. Pouco depois de chegar ao Vaticano, o papa elaborou seu projeto de nova evangelização, que tinha um duplo objetivo: de um lado restaurar a força de uma igreja que considerava debilitada pelos desvios do Concílio Vaticano 2º e, de outro, reforçar a presença católica em uma sociedade cada vez mais secularizada.

João Paulo 2º decidiu pôr seu projeto nas mãos do que depois veio a se chamar de "novos movimentos eclesiásticos", em detrimento da antiga vanguarda dos exércitos papais: jesuítas, dominicanos e franciscanos, principalmente, que, na opinião dele, tinham ido longe demais na interpretação da nova igreja anunciada pelo concílio, aproveitando o mar de dúvidas que foi Paulo 6º em seus últimos anos.

Esses novos movimentos, todos de criação recente e eminentemente laicos, tinham nomes desconhecidos que hoje são familiares para quase todos: Opus Dei, Caminho Neocatecumenal, Legionários de Cristo, Comunhão e Libertação ou Focolares, entre outros.

Em 1978, a Companhia de Jesus era a maior ordem religiosa do mundo, com 30 mil membros, colégios e universidades nos países mais ricos do planeta e numerosos meios de comunicação. Mas também era a principal animadora da teologia da libertação, cuja aproximação do marxismo não podia ser aprovada por um papa originário da Polônia subjugada pelo comunismo.

...

Hoje, os jesuítas são pouco mais de 20.400 e continuam na vanguarda da evangelização, mas, embora ainda dirijam a prestigiosa Universidade Gregoriana de Roma e nove deles sejam cardeais, só poderão votar no conclave e sua influência na igreja é escassa.

Com os demais, bastou o exemplo do que ocorreu com os jesuítas: a condenação da teologia da libertação em Puebla (1979), os processos abertos pela Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício, de teólogos como Hans Küng (1979) ou o franciscano Leonardo Boff (1984), e as chamadas de atenção aos episcopados considerados mais avançados, como a advertência aos bispos holandeses em 1980.

...
 João Paulo 2º reiterou em outras ocasiões, como em 1996: "um dos dons do espírito em nosso tempo é o florescimento dos novos movimentos eclesiais, que desde o início de meu pontificado continuo indicando como motivo de esperança para os homens. Eles são um sinal da liberdade de formas nas quais se realiza a única igreja e representam uma segura novidade".

Esse apoio ficou oficializado no famoso Congresso Internacional dos Movimentos Eclesiásticos, realizado em Roma no significativo dia de Pentecostes de 1998.


Assim, enquanto as congregações tradicionais perdem vocações em ritmo acelerado e a idade média de seus membros ronda os 63 anos, os movimentos minoritários antes de 1978 conseguiram reunir vários milhões de fiéis em todo o mundo, a maioria deles jovens.

Tais movimentos conseguiram aumentar sua influência na igreja. Esse auge deve-se sem dúvida a algumas de suas características --líderes carismáticos, promoção dos leigos, preeminência da espiritualidade, fidelidade absoluta ao pontífice-- que os levou a pessoas e lugares aos quais a estrutura tradicional da igreja não chega.

...



Nessa mesma linha, os novos movimentos, sem abandonar os laicos, foram se clericalizando em maior ou menor grau, criando ramos sacerdotais, formando seus próprios padres e até fundando seus próprios seminários.

Naturalmente, os sacerdotes associados ou membros desses movimentos foram promovidos à hierarquia nos últimos anos e se situaram nas estruturas de poder, tanto no Vaticano como nas igrejas locais.

...
Seja como for, os novos movimentos eclesiais aprenderam a atuar caladamente nas questões de política interna da igreja, por isso é difícil conhecer os dados ou a influência real de cada um deles. Mas, como indica um conhecido teólogo madrilenho que prefere permanecer no anonimato, "seu poder atual é tamanho que seria preciso um pontificado pelo menos tão longo quanto o de João Paulo 2º para acabar com ele".

Quer dizer: haverá novos movimentos por um bom tempo.

*Luis Fermín Moreno é jornalista e colaborador de publicações cristãs.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves



Escrito por Luiz J. Marquart às 20h42
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Papa JPII e o voto dos católicos americanos - post UOL


08/04/2005
Papa levou voto de fiéis ao Partido Republicano
Pesquisas apontam virada política dos católicos dos Estados Unidos

Javier Del Pino
Em Washington


Em uma respeitável pesquisa de opinião realizada em 1960, sete em cada dez católicos dos Estados Unidos declararam sua afiliação ideológica ao Partido Democrata. Essa inclinação se manteve durante as três décadas seguintes, mas depois mudou repentinamente no sentido contrário.

A mensagem de João Paulo 2º, que transformou a oposição ao aborto em uma obstinação, encontrou um lugar comum com a doutrina conservadora do Partido Republicano e permitiu que nas últimas eleições, pela primeira vez na história política do país, o candidato desse partido recebesse mais votos de eleitores católicos que o candidato democrata, John Kerry, que ainda por cima professa essa religião. Segundo a última pesquisa, só quatro em cada dez católicos se declaram democratas.

A análise sociológica dos resultados das últimas eleições presidenciais americanas permite deduzir que entre as conquistas do último papa figura a de ter sido capaz de "direitizar" os católicos americanos.

A Igreja Católica local, a mesma que pressionou Franklin D. Roosevelt a criar a seguridade social, a mesma que historicamente esteve vinculada a causas progressistas como a defesa da pobreza ou a luta pelos direitos civis, orientou a consciência de seus fiéis para a "cultura da vida", a expressão favorita de João Paulo 2º, que o presidente Bush tornou imediatamente sua.

Nos Estados Unidos há 67 milhões de católicos (e mais 11 milhões no Canadá), distribuídos de maneira relativamente uniforme por todo o país. Seus bastiões são Boston, Los Angeles, Nova York e Chicago, e gozam de ampla representação em Estados de grande presença hispânica, como Flórida, Califórnia ou Arizona.

Mas, sendo a denominação religiosa com mais fiéis neste país, sua porcentagem de representação sempre foi um suculento prêmio eleitoral que os democratas deixaram escapar, como já fizeram com outras comunidades.

Dos cidadãos com direito a voto, 27% são católicos e também contam com uma grande representação nos Estados que acabaram sendo decisivos para a vitória, como Ohio e Pensilvânia. Nos sermões das igrejas católicas, a oposição ao aborto, à eutanásia ou ao casamento entre homossexuais se transformou no eixo de uma mensagem com a qual os democratas têm pouco em comum.

Al Gore suou para conseguir 50% dos votos católicos contra 47% para Bush. Quatro anos depois, Bush conseguiu 51% dos votos dessa coletividade, contra tristes 46% de seu adversário, John Kerry, que aspirava a ser o segundo presidente católico americano depois de John F. Kennedy.

Na verdade, o catolicismo de Kerry foi mais um problema para ele que uma religião. Meses antes das eleições, vários sacerdotes se negaram a lhe dar a comunhão dominical por defender o direito da mulher ao aborto. Dos púlpitos, centenas de sacerdotes pediram de maneira mais ou menos aberta o voto para Bush.

De fato, se a pesquisa se limita aos eleitores católicos que vão à missa toda semana, Bush conseguiu 64% de seus votos. O presidente, que professa a religião metodista, soube entender o valor do voto católico desde seu primeiro ano na Casa Branca. Cercou-se de vários conselheiros católicos com a mesma habilidade com que apareceu de improviso em um enterro em Washington imediatamente depois da morte do papa.


Escrito por Luiz J. Marquart às 20h10
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